Existe um tipo de sofrimento que passa despercebido. Ele não chega como uma crise evidente ou uma ruptura clara. Pelo contrário: muitas vezes aparece justamente em pessoas que “dão conta de tudo”. São pessoas que trabalham, produzem, entregam, sustentam responsabilidades e seguem funcionando. São reconhecidas, vistas como confiáveis, como quem resolve. Mas, por dentro, a experiência é outra.

    Uma sensação constante de estar no limite. Dificuldade de desligar, mesmo quando o dia acaba. Um cansaço que não passa, mesmo quando teoricamente deveria passar. Você pode até olhar de fora e pensar: está tudo certo. Mas não está. E talvez esse seja um dos pontos mais difíceis de reconhecer.

Quando tudo parece estar funcionando

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país com maior prevalência de transtornos de ansiedade no mundo, com cerca de 9,3% da população afetada. Além disso, os transtornos mentais já estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no país, segundo dados do INSS e do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho.

Ou seja: o sofrimento psíquico cresce, mesmo entre pessoas que seguem funcionando. E isso muda a forma como a gente precisa olhar para a ansiedade. Porque nem sempre ela aparece como paralisia. Muitas vezes, aparece como excesso de funcionamento.

O custo invisível da alta exigência
Em muitos casos, o que sustenta esse funcionamento é um padrão interno de alta exigência. Ser produtivo, antecipar, não falhar, manter o controle. Isso é valorizado. E, em algum momento, também funcionou. Mas existe um ponto em que deixa de ser apenas um recurso… e passa a ser uma forma de funcionamento. E é aí que começa a cobrar um preço. Esse custo aparece de diferentes formas: ansiedade constante, dificuldade de relaxar, sensação de urgência permanente, alterações no sono ou no apetite, cansaço persistente.

E, às vezes, em algo mais difícil de explicar: uma sensação de desconexão. A vida segue, mas sem a mesma presença, sem o mesmo brilho.

Por que é tão difícil perceber?

O que torna tudo isso mais difícil de perceber é justamente o fato de que, por fora, está tudo certo. Não existe necessariamente um marco que diga “algo está errado”. Não teve uma quebra. Não teve um “não dei conta”. Pelo contrário: tudo continua sendo feito. E, justamente por isso, muitas pessoas permanecem nesse lugar por muito mais tempo do que gostariam. Porque, olhando de fora, está funcionando.

Mas funcionar bem não é o mesmo que estar bem.

O que a psicanálise ajuda a compreender

Do ponto de vista psicanalítico, esse funcionamento não se reduz ao excesso de tarefas ou às demandas externas. Ele costuma estar ligado a uma forma específica de relação com a exigência, que, em muitos casos, já foi internalizada. A cobrança deixa de vir apenas de fora e passa a operar de dentro. De forma contínua, silenciosa, como se nunca fosse suficiente. Mesmo quando tudo está sendo feito, permanece uma sensação de falta.

Mais do que um excesso de tarefas, trata-se de um modo de funcionamento. Um modo que, muitas vezes, se organiza em torno do desempenho, do reconhecimento e da necessidade de sustentar determinados lugares: no trabalho, nas relações e na própria imagem de si. Nesse contexto, o sujeito não apenas responde às demandas: ele se estrutura a partir delas. Por isso, o sofrimento não aparece necessariamente como incapacidade, mas justamente na dificuldade de interromper esse funcionamento.

E é nesse ponto que a escuta clínica se torna importante. Não para corrigir ou adaptar esse funcionamento, mas para compreendê-lo: de onde ele se constrói, o que sustenta e por que, em determinado momento, começa a cobrar um preço alto demais.

Quando o corpo começa a sinalizar
É clichê, mas real: o corpo costuma ser o primeiro a indicar que algo precisa ser revisto.  Nem sempre isso chega de forma abrupta. Na maioria das vezes, aparece aos poucos: dores de cabeça, tensão constante, dificuldade de desacelerar, irritabilidade, um cansaço que se acumula. Em outros momentos, vem de forma mais evidente. Mas, em ambos os casos, não se trata apenas de sintomas isolados. São sinais de que algo nesse modo de funcionamento pode estar exigindo mais do que é possível sustentar por muito tempo.

Não é sobre parar tudo

Diante disso, é comum surgir a ideia de que seria necessário uma mudança radical. Sabe aquele momento em que você pensa em sumir, mudar de vida, começar do zero?  Pois é… Mas, na maioria das vezes, não é sobre interromper tudo. É sobre começar a olhar.

Olhar para o que está sendo sustentado, para o modo como as exigências foram internalizadas e para os padrões que se repetem. Esse processo não é imediato.

Ele envolve reconhecimento, elaboração e, aos poucos, a possibilidade de construir outras formas de se relacionar com o próprio ritmo e com as próprias demandas.

Um ponto de partida possível

Raramente o primeiro passo é mudar, mas sim reconhecer. Reconhecer que, apesar de estar funcionando, algo não está bem e merece ser olhado com mais cuidado.

Se esse texto te atravessou, talvez isso já diga algo sobre o momento que você está vivendo.

Em alguns casos, olhar para isso com mais cuidado — em um espaço de escuta — pode fazer diferença.

Se fizer sentido pra você, você pode conhecer mais sobre meu trabalho ou entrar em contato.


Isabella Bedin - Psicanalista & Hipnoterapeuta
Com trajetória anterior no mercado financeiro e corporativo, atendo mulheres com ansiedade, esgotamento emocional e autocobrança excessiva, justamente o perfil que aprende a funcionar bem por fora enquanto carrega um custo alto por dentro. O que emerge dessa trajetória é uma escuta que reconhece o contexto sem precisar que ele seja explicado. O atendimento acontece presencialmente no bairro Pinheiros, em São Paulo, e também no formato online para quem prefere ou precisa de flexibilidade. Saiba mais aqui.