Mulheres, ansiedade e sobrecarga: por que o segundo turno não é só cansaço (e o que a psicanálise escuta)

“Trabalho o dia inteiro e chego em casa para o segundo turno.”
Eu escuto essa frase toda semana no consultório. Ela nunca vem como um desabafo sobre cansaço. Vem como uma confissão baixa, quase com culpa. “Isa, eu deveria dar conta”.
Não é preguiça. Não é falta de organização. E quando a gente consegue nomear isso na sessão, algo no corpo muda. A paciente para de se interpretar como alguém que está falhando e começa a se reconhecer como alguém que está sobrecarregada. Essa diferença não é semântica. É clínica.
A sobrecarga das mulheres não é uma percepção individual. Ela tem número, tem endereço, tem hora marcada. Segundo a PNAD Contínua de 2022 do IBGE, mulheres dedicam em média 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e cuidados com pessoas. Homens dedicam 11,7 horas. São quase dez horas a mais por semana fazendo o mesmo trabalho invisível. Quando olhamos para mulheres casadas, esse número sobe para 24,1 horas. É um terceiro turno que não entra na folha de ponto, não tem descanso remunerado e raramente é dividido.
E esse excesso tem consequência direta na saúde mental. A pesquisa Covitel de 2023 mostrou que 26,8% dos brasileiros vivem com diagnóstico de ansiedade. Quando separamos por gênero, o abismo aparece: 34,2% das mulheres contra 18,9% dos homens. Quase o dobro. O Brasil já ocupava, desde 2017, o primeiro lugar no ranking mundial de prevalência de ansiedade da Organização Mundial da Saúde, com cerca de 18,6 milhões de pessoas afetadas. Não é coincidência. É contexto.
No mundo, o cenário se repete. A OMS estima que mais de um bilhão de pessoas vivem hoje com algum transtorno mental. Ansiedade e depressão lideraao longo da vida. Não porque o corpo feminino seja mais frágil, mas porque ele é mais exigido. O relatório “Esgotadas”, da Think Olga, que ouviu mais de mil mulheres brasileiras, mostrou que sete em cada dez diagnósticos de ansiedade e depressão são de mulheres. E que os principais gatilhos relatados não foram traumas isolados, mas falta de dinheiro, sobrecarga de trabalho e insatisfação profissional. Ou seja, a vida real.
É por isso que a conta não fecha apenas com dicas de produtividade. Quando a causa é estrutural, a solução individual vira mais uma cobrança. Meditar cinco minutos, organizar a agenda por cores, acordar às cinco da manhã. Tudo isso pode ajudar, mas não resolve um sistema que conta com a sua exaustão para continuar funcionando. E é aqui que a conta fica ainda mais cruel: apesar de a depressão e a ansiedade custarem cerca de um trilhão de dólares por ano à economia global, apenas 2% do orçamento de saúde dos países é destinado à saúde mental. Em países de baixa renda, menos de 10% das pessoas que precisam recebem algum tipo de tratamento.
Na clínica, o que eu vejo não é uma mulher ansiosa porque pensa demais. É uma mulher ansiosa porque carrega demais, e sozinha. A psicanálise não olha para a ansiedade como um defeito a ser corrigido. Ela olha como uma linguagem. O corpo está dizendo, da única forma que consegue, que não cabe mais. Que o automático de dar conta, de antecipar, de cuidar, de não incomodar, está cobrando um preço alto demais.
O trabalho que faço, inclusive com a hipnose clínica, não é para fazer você relaxar e voltar para o mesmo lugar. É para tirar esse peso do piloto automático e colocar em palavras. Primeiro, a gente nomeia. Diferenciar “estou cansada” de “estou carregando sozinha 24 horas de trabalho não remunerado” muda completamente a forma como você se trata. Depois, a gente desautomatiza. Percebe onde o “sim” vem do medo de ser vista como difícil, onde o cuidado com o outro virou descuido consigo. E por fim, a gente reorganiza o pacto: com o parceiro, com o trabalho, com a família e, principalmente, com você mesma. Não é sobre fazer menos por preguiça. É sobre parar de fazer o invisível.
Ansiedade em mulheres raramente é só ansiedade. É história, é gênero, é economia, é corpo tentando dar conta de uma equação que não fecha. Se esse texto te encontrou nesse lugar de segundo turno permanente, talvez seja hora de tirar essa conversa do silêncio e levar para um espaço onde ela possa ser escutada sem pressa.
Eu atendo online mulheres que vivem essa dupla jornada entre performance e cuidado. Se fez sentido, me escreve.
Isabella Bedin - Psicanalista & Hipnoterapeuta
Com trajetória anterior no mercado financeiro e corporativo, atendo mulheres com ansiedade, esgotamento emocional e autocobrança excessiva, justamente o perfil que aprende a funcionar bem por fora enquanto carrega um custo alto por dentro. O que emerge dessa trajetória é uma escuta que reconhece o contexto sem precisar que ele seja explicado. O atendimento acontece presencialmente no bairro Pinheiros, em São Paulo, e também no formato online para quem prefere ou precisa de flexibilidade. Saiba mais aqui.
Com trajetória anterior no mercado financeiro e corporativo, atendo mulheres com ansiedade, esgotamento emocional e autocobrança excessiva, justamente o perfil que aprende a funcionar bem por fora enquanto carrega um custo alto por dentro. O que emerge dessa trajetória é uma escuta que reconhece o contexto sem precisar que ele seja explicado. O atendimento acontece presencialmente no bairro Pinheiros, em São Paulo, e também no formato online para quem prefere ou precisa de flexibilidade. Saiba mais aqui.
Fontes: IBGE – PNAD Contínua 2022; Covitel 2023; OMS – Atlas de Saúde Mental 2024 e relatório Saúde Mental Mundial Hoje 2025; Think Olga – Relatório Esgotadas 2023; ADAA – Anxiety and Depression Association of America; Global Burden of Disease Study 2021.